quinta-feira, 20 de novembro de 2008

(The true) Mayhem

Um dos maiores sustos musicais do ano foi descobrir em uma segunda-feira inocente, que, na sexta seguinte, o Mayhem (a banda mais lendária do black metal norueguês) tocaria no Brasil; mais precisamente, em Duque de Caxias como parte da South American fucking armageddon tour. Imediatamente, o desavisado em questão (eu) se pôs em estado descontrolado de euforia frente à possibilidade de ver tamanha destruição pessoalmente. E, com a ajuda de três pessoas e trinta reais (tudo bem que foi em Caxias, mas porra, como é bom pagar tão pouco por um show internacional... e sem história de meia-entrada!), o ingresso finalmente chegou à minha mão na quinta-feira de madrugada.

Algumas mensagens de msn, telefonemas, esfirras no Largo do Machado e uma providencial carona depois, chegamos no cenário apropriadamente apocalíptico que era o tal Clube Recreativo Caxiense (uma belezura!), cujo cenário contava com podrão mais das trevas e assustadoramente feio de todos os tempos. Da rua, onde foram devidamente entornados alguns latões de cerveja, já se podia ouvir a desgraceira que emanava de dentro da, digamos generosamente, casa de shows. E que certa e justamente emputecia a vizinhança.

No primeiro sinal de silêncio, acompanhado da notícia de que só mais uma das infinitas bandas de abertura restava antes da atração principal, entramos no clube; até porque perder um pedaço de um show tão improvável é algo impensável, ainda mais depois de se deslocar até Caxias! Eu honestamente não faço idéia de qual feiúra musical estava tocando na hora em que a gente chegou na pista, que na verdade era uma quadra de futebol de salão muito mal disfarçada como espaço pra show. Aliás, olha os nomes das bandas que passaram pelo 'palco' do lugar antes da atração principal: Chaos Synopsis, Lacerated and Cabonized, Impacto Profano, Blasphemical Procreation e Enterro. Isso porque depois do Mayhem teoricamente ainda iam rolar mais três bandas: Made by Hate, Mork e Berkail (até as quatro da manhã!). Essa porra era praticamente um mini-festival de black metal.

O fato é que com o show da desgraça anônima chegando ao fim, alguém avisou que ainda tinha mais uma banda pra subir no palco, o tal do Enterro. A banda tem uma coisa engraçada que é o fato de contar com alguns integrantes do Matanza na formação, ou seja, o visual de alguns dos caras não tem porra nenhuma de black metal. Aliás, essa está longe de ser a única coisa engraçada do grupo porque a) os caras anunciavam as músicas e falavam com o público em português, apesar de você não entender uma palavra, em especial com o som sensacional do Caxiense; b) o vocalista é um careca doidão com a cara pintada de corpsepaint e que anda meio corcunda pelo palco fazendo uns gestos bem retardados; e c) tem uma parte do show em que sobem umas vadias menores de idade no palco pra fazer umas 'danças sensuais' na frente de um bando de nerds frustrados que entram imediatamente em estado de excitação descontrolada (tem até um vídeo disso no youtube, mas em respeito aos pais dessas crianças eu não colocarei o link aqui).

Em suma, o show dos caras foi divertido pracaralho. É meio difícil julgar o som de uma banda só de ir em um show, ainda mais sendo em um lugar sem o menor resquício de acústica, mas a impressão que deu é que os caras tocam uma espécie de black metal com uns riffs mais, digamos, modernos nas partes lentas; algo como uma mescla de black com groove metal, o que leva uns pontos por ser minimente diferente da desgraceira que se espera do gênero e do evento de uma maneira geral.

Quando finalmente acabou o show do Enterro, rolaram uns sons maneiros no playback (incluindo algumas coisas bem improváveis como Painkiller e Mouth for war!). A tensão do clube ia crescendo conforme mais pessoas estranhas entravam no recinto. Ironicamente, quase ninguém do público usava aquele visual clichezão do black metal; não me lembro de ninguém com a cara pintada, por exemplo, e um mané de sobretudo era o máximo da produção visual que eu vi por lá. O que tinha (e muito) era uma negada mal encarada pra caralho, que vestia basicamente camisas do Mayhem e do Darkthrone (ou paradas mais obscuras de logos indecifráveis). Eu, com minha camisa do Slayer, com certeza era um dos mais simpáticos do lugar, apesar de o primeiro lugar com certeza ficar com o cara de camisa lisa amarela (!!!) que estava com a gente. Uma das coisas mais bizarras foi me dar conta que esse provavelmente foi o primeiro show de metal da minha vida em que eu não vi ninguém com uma camisa do Iron Maiden.

A verdade é que eu tinha pouquíssima familiaridade com o universo do Mayhem fora ler as bizarrices (verdadeiras ou não) que circundam a história da banda. Já conhecia, muito mal e porcamente, alguma coisa das músicas da banda (tipo o ultraclássico De mysteriis dom Sathanas), mas só fui começar a me aprofundar no som deles depois de descobrir que ia rolar o show. Ou seja, não só eu não estava preparado pro que vinha pela frente, como eu mal sabia o que esperar. Afinal, o mais próximo de um show de black metal que eu já tinha ido era o Dimmu Borgir e, convenhamos, do lado do Mayhem, a banda de Shagrath e cia. é quase popzinho de Antena 1.

A subida da banda ao palco foi anunciada pela sensacional instrumental Silvester anfang, do EP Deathcrush. Uma espécie estranha de marcha militar, a faixa é a introdução perfeita pra guerra que se instalou na platéia durante o show. O público, que infelizmente não conseguiu encher o espaço do clube (talvez se fosse uma quadra de tênis...) estava completamente eletrizado, quase drogado, pela presença de Necrobutcher e cia. e quando o vocalista húngaro Attila Csihar (o irado é que isso não é pseudônimo, é o nome mesmo do cara...) 'saudou' o público, a casa veio abaixo. A maior violência musical que eu já testemunhei começou.

É até difícil descrever a sensação bizarra que o quarteto norueguês causou no seu show, mas é fato que aquilo foi a atmosfera mais negativa, pesada e puramente ruim que eu já senti em toda a minha vida. O fato de os caras privilegiarem os clássicos da fase inicial no setlist deixou o povo absolutamente enlouquecido e fora de si, alimentando umas rodas ultraviolentas e ensandecidas. Ao contrário da grande maioria dos shows de metal, quase ninguém acompanhava as músicas cantando ou mesmo fazendo air guitar ou coisas do gênero: todo mundo estava em um transe fudido, enfeitiçado pela perversidade que o som dos caras e a toda a história por trás dele emanam.

Por outro lado, a onda errada pura e simples lutava em um embate feroz com a fodeza das músicas do Mayhem. Lendas grotescas à parte, o grupo norueguês não se tornou um dos principais monumentos do estilo à toda: em todas as suas encarnações, mas particularmente na primeira fase (interrompida ao ritmo de suicídios e assassinatos), o grupo escreveu algumas das músicas que melhor representam e encapsulam o que foi a onda original do black metal norueguês. Como é o caso das ultraporradarias Deathcrush e Buried by time and dust e a assombrosa e por demais clássica, além de obrigatória, Freezing moon, obviamente um dos pontos altos da noite.

Além disso, a banda é, sim, muito boa. O baixista e fundador Necrobutcher é possivelmente o mais limitado do grupo, apesar de ser uma figura carismática, quase uma versão black metal (e mais tampinha) do Lemmy (vale conferir a entrevista do cara no documentário Metal: a headbanger's journey) e certamente a mais óbvia encarnação viva da história do grupo. O novo guitarrista Morfeus segurou bem os riffs tanto do lendário Euronymous quanto do dissonante Blasphemer, recém-saído da banda. Nas baquetas, sem comentários: o Hellhammer é fácil um dos mais monstruosos bateristas que eu já vi ao vivo (e olha que essa galeria inclui gente tipo Dave Lombardo, Pete Sandoval, Doc e Nick Barker), com uma técnica impressionante e o bumbo duplo mais assustador e massacrante da minha experiência pessoal.

Nos vocais, o Mayhem tinha de volta o já mencionado Attila, que, depois de gravar o debú da banda (em substituição ao Dead, que se matou e virou capa de CD), saiu por anos e voltou no mais recente disco de estúdio, Ordo ad chao. Confesso que nas minhas audições dos discos, não gostava muito do vocal do cara, mas foi preciso ver a performance ensandecida do sujeito pra entender e apreciar a bizarrice que ele passa pela voz. Além de ser um dos mais versáteis e esquizofrênicos vocalistas de black (o cara não tem vergonha de passar de um sussuro pra um urro num piscar de olhos no meio de um verso), no palco sua máscara e postura são uma boa síntese do visual da banda; que por sinal não contava com cabeças de porcos ou bodes pendurados em estacas como é de costume (uma das poucas vezes em que a produção desfalcada de shows no Brasil serviu pra algo de bom).

Na execução da ultra-animal Pagan fears, eu não resisti: tive que entrar na roda. Ok, eu sei que não era uma boa idéia, mas você simplesmente não pode ir a um show desses e não entrar na roda. E foi aí que eu pude sentir que a onda errada era sim a grande atração da noite: a roda não era aquela coisa pseudo-violenta dos shows normais, em que, quando você leva uma porrada é sem-querer, ou que, quando você cai, alguém te levanta. Uma roda normal não assusta ninguém; no máximo a sua mãe. Mas nesse show neguinho tava ali na má intenção mesmo, o objetivo era realmente partir quem passasse pela frente em dois. Depois de alguns minutos e de levar umas porradas ridiculamente ignorantes (o show foi dia 24 de outubro e até semana passada meu joelho ainda tinha um roxo de um chute que eu levei), eu desisti. Me resignei em ver o show mais perto dos poucos fãs que estavam ali pra ver o show (tinha até um nerdzinho adolescente cantando e gesticulando que nem vocalista de metal melódico!) e não pra descarregar suas frustrações nos outros em forma de hematomas.

O pior é que mesmo na ala nerd da parada, o clima pesado deixava todo mundo em um estado de alerta e tensão constante, porque a qualquer momento podia vir um retardado querendo briga pra cima de você ou abrir uma porrada do seu lado. Não à toa, eu pude ver nessa noite uma das cenas mais feias da minha vida: dois caras tavam se estranhando e um deles caiu no chão; o outro idiota cruzou a porra da roda correndo e, plau!, meteu um bico no peito do que estava caído, que ficou chapado tentando se levantar sem conseguir, no meio roda e ninguém ajudava o maluco! Os olhares de raiva na cara do povo da roda eram uma coisa boçal, tão exagerados que poderiam ter saído de uma história em quadrinhos.

Bizarro também é o fato de essas cenas combinarem tão perfeitamente com o que rolava pelas caixas de som que tudo se completava de uma forma que... não se pode dizer que era uma forma de beleza, porque isso seria um contra-senso fudido, mas o sentido que aquilo fazia era sim algo pleno e transcendente. Nesse sentido, o som ruim do Caxiense até colaborou com o efeito arrasador do show, porque, por exemplo, quando o Hellhammer destruía o bumbo duplo, você sentia a porra das vibrações no ar; quando o baixo distorcido do Necrobutcher estourava totalmente o som, os pêlos dos braços e pescoços do público vibravam junto. E quando o Attila mandava aqueles grunhidos típicos, aquela merda ressoava dentro do seu ouvido indefinidamente. O mais assustador talvez fosse isso: mesmo fora da violência da roda, você sentia a onda negativa na pele, no tato. E o que se via e ouvia completava tudo isso de uma forma verdadeiramente absoluta.

Quanto à música, o show teve alguns momentos de fodeza imortal. Mesmo conhecendo pouco da discografia dos caras, foi impossível de se controlar em alguns momentos, que com certeza conseguiram transportar os presentes, mesmo que muito rapidamente, ao absurdo que deve ter sido aquele período do surgimento do black norueguês e tudo que veio junto com a música. Nesse sentido, a execução do hino eterno Freezing moon talvez tenha sido o ápice da noite (o solo em especial foi demasiadamente foda de ver ao vivo), faltando apenas a sensacional Funeral fog (na moral, o que teria sido ver o Attila cantado o refrão, dos mais bizarros de todos os tempos, ao vivo?) pra arrasar com tudo de uma vez.

Chegando ao final do set normal (depois de muita coisa que eu não conhecia), os caras saíram do palco de uma forma absolutamente bizarra. Alguém devia seriamente ter filmado isso, porque não é algo fácil de descrever. E então, o Mayhem voltou pro palco do Caxiense com um discurso de orgulho pelo Brasil etc. e tal... e o que parecia mais uma daquelas clássicas puxações de saco de bandas de metal levou a um dos momentos mais devastadores da noite: um cover absolutamente fodaço da Troops of doom, do Sepultura. Na seqüência, anunciaram uma música que não costumam tocar... e mandaram a épica De mysteriis dom Sathanas, que teve seu grande momento naqueles vocais limpos muito errados, mas muito fodas, do Attila, num típico exemplo de música que não dá pra imaginar outro vocalista cantando. E, como se não bastasse, veio depois um Pure fucking armageddon pra aniquilar todo mundo.

E, depois, o silêncio.

Eu nunca tinha saído de um show tão arrasado. Nunca tinha saído de um show com tanta certeza de que eu ficaria doente depois. Ver o Mayhem ao vivo foi um dos eventos de maior esgotamento físico e mental que eu já experimentei. Subindo minha rua (depois da salvadora carona de volta), eu mal tinha forças pra chegar à portaria do prédio. O banho quando eu cheguei em casa foi na verdade um longo tempo sentado embaixo do chuveiro, pra ver se a água levava algo daquela raiva latente que ainda me impregnou por alguns dias depois disso tudo.

Num ano em que praticamente todos os shows foram repetecos (alguns melhores, outro piores), o show do Mayhem não foi só a maior surpresa. Foi o mais atípico e mais diferente e mais inclassificável show que eu vi em muito tempo. Talvez em todos os tempos. Uma máquina do tempo e espaço, ou o mais próximo disso, que eu e os outros loucos presentes vão conseguir pra uma das cenas mais erradas da história da música.

E, sinceramente, South American fucking armageddon tour é pouco, muito pouco pra descrever a experiência desse 24 de outubro macabro e imortal.

Setlist fora de ordem (e, infelizmente, incompleto porque eu não conhecia lá muita coisa dos caras nessa época): Silvester anfang, Deathcrush, Pure fucking armageddon, Freezing moon, Pagan fears, Buried by time and dust, De mysteriis dom Sathanas, My death, Anti, Troops of doom (Sepultura).

Nenhum comentário: